A roça é um sonho

Eu quero chamar o sonho de encantamento. Aquela luz mágica que aparece iluminando a cena. Eu quero um sonho de roça. E roça é aquele lugar que tem misturado um pouco da natureza não mais tão selvagem com um pouco de gente menos selvagem também. Tem roça que tem galinha, vaca, cavalo. Sempre tem passarinho ou aves maiores. Outras também têm macacos, tatus, gambás, pacas, capivaras. Tem rio que corre ao lado, córrego que passa ao fundo, riacho, ribeirão, com sorte tem até cachoeira, corredeira.

Mas não há roça sem jabuticabeira no quintal. Ou mangueira ou o pé de limão, onde uma criança um dia experimentou seu sumo sob sua sombra. Cajueiro. Loureiro. Coqueiro. Um pé de castanha, ou de umbu. Pimentas, rosas, salsinha. Coisas para comer, coisas para fazer bonito.

No meu sonho de roça, eu sempre me vi feliz, subindo em cima de árvores, quando criança, ou andando a cavalo. Acendendo o fogão a lenha, ou apanhando a fumaça toda na cara. As pessoas acenam com a mão explícita de longe, e quando chegam perto sustentam o olhar. Eu demorei muito tempo para entender que uma pessoa na porta da minha casa na roça significava que eu deveria oferecer um café ou uma água, no mínimo. Porque eu vim de cidade. Cidade onde as pessoas estão acostumadas a passar ao largo, ao não olhar de frente, e falar expressões que não significam nada para sua vida.

Talvez eu tenha idealizado essa roça fazendo você crer que ela é um sonho. Mas ela tem poeira e muito pó no inverno, e tem lama no verão. Tudo fica longe em estradas de terra: o médico, o comércio, um amigo ou parente. Também a velocidade é diferente: não adianta correr porque o milho só nasce na época certa, a fruta não nasce antes, e a flor não aguenta até a festa. Algumas vezes tem pernilongo, aranha, mosquito, e sempre, sempre, sempre, muita formiga.

No entanto, idealizada ou não, na roça nenhum dia é igual ao outro, porque o sol vai nascendo cada dia num lugar atrás do morro, na linha do horizonte ou na beira do rio. E a lua também vai correndo esse céu de ponta a ponta desenhando sua luz nas nuvens, entre as copas das árvores, no limpinho da noite ou por trás da névoa. Hoje tem uma flor nova no meio do mato, tem um pássaro de cor estridente, a galinha chocou uns pintinhos, a tarde ficou mais linda.

Ou talvez eu esteja querendo uma roça que não há mais: de carroça passando, de carro de boi cantando, de bolo de fubá ou biscoito assado na hora, bolinho de chuva, conversa fiada, risadas. Na minha memória, presente como se fosse hoje, tem muita pedra atirada no rio, muita manga escorreu pelo meu braço, furei minha roupa em muita cerca que transpassei. A vida, enfim, vivida na pele, na retina, no gosto da boca. E se eu sonho esse lugar como um espaço para viver, onde vivo e insisto em ficar para um dia encontrar meu último suspiro, e se acordo todo dia agradecendo a abundância de cor no meio de tanto verde, é porque a vida que vejo vem da roça.

Eu não apenas respiro o ar que a árvore renova, eu troco átomos com ela. Eu não apenas abraço seu tronco sem encontrar as mãos do outro lado, suas raízes são meus pés fincados na terra, conectados com micélios, raízes das raízes trançadas nas minhas sinapses. Eu sonho a roça e a roça me sonha.

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

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