Domar

Existe uma técnica de domesticação que se chama doma racional. Essa técnica toma como base conhecer o animal e sua personalidade trabalhando com esses elementos para atingir o objetivo de torná-lo mais dócil e obediente ao trato sem sofrimento. Hoje em dia é reconhecida e efetiva. Mas naquela época, eu não a conhecia.

O animal em questão era completamente selvagem. Não aceitava nenhuma autoridade, nenhum comando, era arisco e de comportamento em geral irado, abrupto, inesperado. Podia ficar horas resguardado ensimesmado no seu canto intocável. Até explodir em um surto de liberdade indomável, corria, pulava, subia em árvores, beirava o precipício, mordia, arranhava, batia, desafiava os demais temerariamente.

Quando entendi que precisava domesticá-lo, foi um pesar enorme. Já fazia estragos, já consumia muito minha energia, já tinha me deixado com cicatrizes profundas. Era preciso fazer alguma coisa para evitar uma catástrofe. Então, eu que não sei fazer nada sem entender, comecei por colocar em uma jaula esse animal enorme, maior que eu, mais forte e estúpido. Estupidez com estupidez não se paga. A prisão embruteceu ainda mais seus sentidos. Ensurdeceu, cegou, fez dele um vulcão prestes a erupção, ainda que com aparência externa de montanha plácida.

As restrições e rédeas curtas não faziam efeito, longe disso. Seus golpes, sempre explosivos e inesperados, pareciam sair do fundo do mar como um bote de tubarão, rompendo a superfície calma para uma fúria voraz. Não sobrava quase nada depois que passava a turbulência das ondas. E assim, como se protegesse a si mesmo de um mal que não enxergava, como vinha, sumia. Refugiava-se num pântano de difícil acesso, onde não se chegava se não se fosse determinado, impetuoso.

Quanto a mim, só pensava em lhe serrar os dentes, cortar-lhe as garras, tirar-lhe as asas, num desespero de tentar lhe controlar os ímpetos. E a cada gesto inútil e infrutífero, parecia que me atolava ainda mais numa areia movediça, num terreno arenoso, ardiloso, caia na teia e me enrolava cada vez mais. Agora eu virara a presa fácil. De domadora, virara a caça. De herói a vítima de um vilão que alimentara vigorosamente. Passei noites inteiras em luta feroz por retomar o controle. E dias exaustos na trégua de recolher os mortos. Na minha intenção de civilizar, fiz uma guerra. O animal sangrando, rugia.

Depois disso, cortei sua ração, cortei a água, quase cortei o ar. Queria medir forças, eu que mal comia e mal dormia, queria encarar a besta de frente. De cara limpa. De mãos vazias. Então, olhando para dentro de sua caverna, o escuro que me impedia de ver seu tamanho, dei com seus olhos medrosos e em brasa a me fustigar. Não vi que aparência tinha, ou o que tinha a seu favor, fiquei presa naquele brilho de coisa viva a respirar pesado. Olhos nos olhos, o terror e a raiva de um mundo inteiro num olhar sem fim. Que dia é hoje, que horas são, quem sou eu? Onde erigi meu castelo, a minha vida, onde foi que finquei raízes? De todas as minhas qualidades, de todos os meus talentos, ali, frágil e esguia, deparava com minha nudez áspera. Eram meus aqueles espinhos, e era eu a hidra de milhares de cabeças. Tendo usado todas as armas que conhecia, agora só me restava um último gesto: trazer-lhe para fora de sua escuridão. Impeli-la para a luz de fora. Abrir-lhe os horizontes de sol a pino para queimar as sombras embrutecedoras. E esperar que assim, ainda que tivesse de desistir de domesticá-lo, ao menos pudesse amansar seu coração.

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

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