Aproveito o silêncio da noite

Aproveito o silêncio da noite para pensar na vida um pouco. Já está chegando o inverno. As quaresmeiras floridas enfeitam os verdes da mata que agora apenas vislumbro a silhueta. Tem árvores que perdem as folhas, outras perdem pinhões nessa estação. Um pouco perdi também, um pouco ficou para trás. Não me arrependo.

Mudei de cidade, mudei de vida, de casa, de companhia. Mudei sem medo de me perder e quase me perdi. Tantas são as coisas que se perde numa vida. Já perdi o olhar em outro olhar quase sem perceber, quase sem querer. Mas depois quis. É assim, no fundo de casa o rio passando levando com seus sons os sonhos que não tiveram tempo de se realizar. E os que foram mal realizados. Mal dormidos. Mal sonhados. Mas existem sonhos mal sonhados? Talvez mal declarados, mal assumidos.

Quase não tem estrelas lá fora, bem escuro a ponto de não me reconhecer na noite. Fico pensando, pensando, um pouco olhando para fora. O peito vazio para o que vier. Os pulmões vazios para todo o ar que puder respirar e expirar para seguir em frente. Sim, porque não olho para trás, não penso no que ficou, acabou, morreu.

Aliás, é difícil para mim aceitar a morte, o fim. Deverá haver um fim para tudo? Mas se depois que o dia acaba o que vem é a noite e depois o dia de novo? E se depois que acabar a infância e acabar a juventude e acabar a maturidade e acabar a velhice vier uma nova infância? Não pode haver morte para o amor que nasce forte e macio como um bebê. Os bebês não morrem, eu sei. Eles seguem crescendo em outro lugar, nos braços de um vento morno, sob os cuidados de uma outra terra.

Meu amor vem crescendo na mata solto como os cães caçadores que já não existem mais. Em casa, preso, se entedia e dorme o dia todo. Na mata, liberto e sem comida, tem que buscar seu alimento pelo seu instinto. Tem que acreditar naquilo que não vê. Eu já acreditei, já desacreditei, voltei a acreditar em outra coisa ainda. Quem sou hoje já pulou cercas, já passou por baixo de pontes, já se escondeu em árvores, já viveu em árvores. Já caiu delas também.

Hoje prefiro andar. Caminhar o caminho dos que sabem, mas esqueceram. Os novos inocentes.  Ainda bem que posso caminhar assim com você ao lado. Posso estender o braço e tocar sua mão ao alcance. Posso virar a cabeça e encontrar seu sorriso pronto, verdadeiro, lindo como o caminho que às vezes se estreita, às vezes se alarga. Tudo passa, tudo parece voltar depois, outro, diferente, tão diferente que nem se pode dizer que é o mesmo.

Não tenho medo de me perder, de perder. Mas já tive medo. Só porque queria ser sempre o herói, sem medo, ganhando sempre, de qualquer jeito. Melhor mesmo é ficar vendo o rio passar em corredeira, sabendo que ele está descendo, carregando o que lhe atravessar o caminho, abrir um vinho, bom vinho, e esperar o frio que vai chegar. A montanha tem dessas coisas. Esconde atrás de um horizonte perto um mundo imenso e surpreendente. Detrás dos morros vai surgir uma lua, vai se pôr também, e desse lado da serra vai nascer o sol depois. Ventos sopram as nuvens deixando azul azul o céu de outono. Mas por enquanto, ainda é noite, o frio ficou lá fora e, aqui dentro, o silêncio.

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

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