Quero pessoas que sim

Eu sou muito desorganizada. Reconheço. Eu tento não desarrumar nada. Tiro a primeira peça de roupa que acho na gaveta, visto e pronto, não troco por nada. Guardo a carteira e coisas pequenas no primeiro zíper da bolsa para achar fácil. Coloco apenas uma camisa com uma calça em cada cabide para não tirar uma e amassar a outra, ou derrubar. Guardo os óculos dentro da caixinha de óculos, as meias na gaveta de meias. Toda roupa suja fica no banheiro. Mas cada vez que preciso de uma coisa, não acho.

Não sei onde está meu passaporte. Não sei nem se tenho passaporte. Não voltei ao médico para mostrar o resultado dos exames. Nem fiz todos os exames pedidos. Tenho um quarto inteiro, fechado, para arrumar. Um monte de caixas guardadas que nem sei o que tem dentro. Fotos antigas, papéis antigos, coisarada. Tenho micros velhos que nem funcionam mais, sem saber se me desfaço ou se esqueço, jogo no lixo. Mas pode ter algum dado que não podia ser dispensado. Tenho cortadores de grama e só usei uma ou outra vez. Tenho uma tesoura de poda que não sei onde está e a ora-pro-nobis que precisa ser podada está lá, a esperar olhando para mim parecendo uma coroa-de-cristo.

Guardo garrafas de vinho vazias porque tenho dó de jogar no lixo. Acredito que ainda possa ter algum uso. Guardo revistas de gastronomia, milhões. Talvez tenha uma receita que queira recuperar. Guardo roupas velhas, mas que ainda podem ser usadas. Quase sempre, quando me desfaço de roupas são as mais novas, as velhas, que gosto de usar, ficam. Será que sou compulsiva? Nem vou falar para nenhum médico senão serei diagnosticada e terei que tomar remédio.

Em geral, quando tenho arroubos de organização, são de pôr a casa a baixo, não fica nada fora do lugar. Mas dura só um dia, a desorganização tem que ser pouca, se ficar para o próximo dia, ficará para a próxima vez. Tenho fôlego curto para arrumações. Aliás, acho que não sou persistente o suficiente. Aprendi tudo que quis aprender, mas não fiz tudo que precisava. Quero dizer, aprender é um ato para dentro e para esses não tenho problemas. Meu problema é quando o ato é para fora, quando tenho que transpor montanhas de problemas, quilos de papéis, que não sei por onde começar. Tenho vontade de fechar todas as portas e ir embora. Acho que é assim que funciona a depressão. A gente fecha todas as portas e fica lá dentro.

Tenho uma natureza mais contemplativa. Gosto de passear, viajar, conhecer lugares e pessoas. Trago um monte de cartões de visitas e folhetos de todos os lugares que já passei. Todas as feiras que vou, trago todo tipo de coisa. Mas não tenho paciência de procurar, organizar, catalogar e guardar. Nunca acho o telefone de alguém que tenha conhecido se for um cartão. Se não for a agenda do meu celular, não sei nenhum telefone. Preciso constantemente de uma inteligência artificial extra, uma agenda inteligente.

Acho que por causa dessa desorganização interna é que gosto de espaços amplos. Nada de casas pequenas, quartos apertados, camas estreitas. Gosto de roupas largas, sapatos cômodos, mesmo que não sejam lá essa beleza toda. Dispenso a beleza pelo conforto. Aliás, não vejo muita graça na beleza que seja só estética, só se for artística também. Belos são pinturas, jardins, fotos, músicas, livros, esculturas. Pessoas são ou não são interessantes, inteligentes, bem-humoradas, divertidas. E a beleza vem do sim, não do que elas vestem. Agora, por exemplo, quero conhecer pessoas que sejam sim.

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

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