Um jantar de presente

Resolvi preparar um jantar bem rico e saboroso para terminar o dia diferente de como começou hoje. Deixei a irritação cansada de lado e preparei o capellini mais perfumado que podia fazer, com os ingredientes de que dispunha. Capellini ao molho de berinjela e pimenta doce recheada de tomate seco e castanhas, no azeite extra virgem, vinho branco e creme de leite fresco. Depois de tudo isso, parmesão ralado na hora e, claro, uma taça de vinho carmenére.

Mas o que pretendia ser uma noite calma e degustativa acabou se tornando uma turnê musical pelo melhor do repertório que poderia imaginar. Mais vinho e água para aguentar a noite toda. Muita conversa e diversão, e uma quarta-feira normal já ficou diferente. A vida é repleta de momentos incomuns que podem ser tirados da cartola até quando já se foi para casa terminar o dia. Eu, que estava cansada, que falei o dia inteiro, pensava que ia descansar. Só a mente, o corpo continuou na ativa.

É interessante como a vida pode dar voltas. Passei mais ou menos a metade da vida prometendo a mim mesma mudar. Mudei. E agora fico procurando aquelas coisas que fazia antes. Às vezes é mais fácil mudar o lá fora do que o aqui dentro. O aqui dentro continua querendo o mesmo lugar quentinho e confortável de antes. O lugar que já havia esquentado demais até, que tinha feito um jeito de incomodar para fazer mudar.

Assisti um filme em que a personagem tinha que mudar, ir embora, a cada mudança dos ventos. Pode ser uma forma de nunca se acomodar. Mas também pode ser uma forma de nunca se fixar. Tanta gente tem medo de se fixar. Comprometer-se. Fazer parte. Parece que fazer parte é uma acomodação. Porque amar é assim. Tem o dia seguinte. Não é como a paixão, descontraída e passageira, efêmera, que pode ser uma noite, um dia, talvez. Amar tem o dia seguinte, acordar e continuar querendo. Querer é uma atitude. E toda atitude é comprometida, caso contrário é apenas um movimento.

Passa o tempo e continuo querendo fazer da minha vida algo que realmente valha a pena. Fazer a diferença onde quer que eu esteja. Olhar todo dia pela janela e me reconhecer na paisagem. Sentir o calor do sol na pele e entender meus limites e aceitá-los, e ainda assim, conseguir sorrir. Porque rir da vida é um bom significado para ela. Ouvir uma música boa, bem cantada ou tocada, tomar um bom vinho. E seguir em frente, seja para onde for. Seja como for. Seja como flor.

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

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