Minha casa tem quintal

Minha casa tem quintal onde passeia o colibri. Onde passeiam as abelhas e passeia o meu olhar. Minha casa tem cachorros que pulam em cima da gente, pulam em cima de todos, e lambem e latem desgovernados. Que amo e me amam de uma forma impressionante. E minha casa tem dois gatos que dormem preguiçosos e miam uma conversa sem fim se desafiados.

O quintal da minha casa tem um tanto de plantas que fui eu que plantei. Elas me dão alegria e perfume, beleza e sabor, elas dão ao ar uma frescura de ar assim novinho, recém-climatizado, leve e solto.

Perto do quintal e um pouco além tem muita água que passa correndo sem nem me ver. Correndo em chiadeira sem fim, dia e noite, dia e noite. Eu quero dizer para todo mundo que sou feliz, quero dizer, mas não consigo. Não preciso. Na minha voz dá para reconhecer, no meu olhar sorridente dá para ver.

E eu trabalho logo ali entre os perfumes das plantas que acabei de colher. Ouvindo os pássaros em seus cantos e encantos sonoros. Eu trabalho olhando para tudo isso e sabendo que fui eu que fiz.

Cheguei à janela de vidro que dá para o jardim interno. É madeira e barro porque assim me esquenta. E no meio do jardim que há, entre frutas vermelhas e flores amarelas, flores azuis, flores roxas, está meu atelier. Tem cheiro de comida porque as panelas cozinham os perfumes no fogão à lenha. E porque o apetite que sacia leva consigo o prazer de haver realizado. Comer é a metáfora da vida. Quero fazer poemas de brócolis e beterrabas vermelhas e doces. Beterrabas cozidas no suco da uva que alguém me ensinou e ainda não fiz, mas vou fazer.

Eu já estou no futuro. Ou o futuro já é hoje. Quando reconheço que a música de fundo é meu coração batendo, quando ouço forte o espalmar dos cílios se encontrando num piscar de olhos.  Quando paro para ouvir passar as formigas cortadeiras em ruidosa trilha. Quando sincronizo meu relógio interior como a sinfonia do tempo. Eu que não fiz piano porque não gostava de solfejo, agora sou obrigada a reconhecer as semicheias das mãos que se encontram.

Eu me lancei na vida para ir atrás de um sentido. Muito sentido passou debaixo da ponte sem que eu mordesse nenhum anzol até me debater nas margens de barrancos que escorregavam e me devolviam à água. Por que tem que doer, meu deus. E a pergunta não ficou sem resposta. Agora que a janela me faz moldura à cerejeira do quintal, olho para fora e vejo que o mundo voltou a girar sem me deixar tonta, parece que encontrei meu lugar no lugar em que estava. E só precisou que eu declarasse o meu querer.

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

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