Crônica da Roça

Esperar que a comida mineira não tenha nunca gordura de porco é como pedir para um cozinheiro francês não usar manteiga, é tirar sua alma. Isso dito por alguém que não come nenhum tipo de carne ou derivados há mais de trinta anos pode parecer esquisito. Mas eu não vou reescrever a culinária tradicional, ao contrário, eu a estou louvando. Vida longa à couve colhida do quintal e picada feito cabelo de anjo, cabelo de milho, para ser refogada em alho dourado, quase só um susto, para então seguir verde ainda para cima de um prato de quirerada com feijão cremoso. Coma-se quente até quase queimar a língua. Quase. Coma-se acompanhada de uma cachacinha boa, mas boa mesmo, dessas de só deixar lembranças boas no dia seguinte.

Toda vez que como couve penso logo que seu melhor acompanhamento é arroz branquinho, feijão fresquinho e ovo caipira. Caipirinha. Quem acha que caipirinha é um diminutivo então nunca tomou uma daquelas que não tem em qualquer lugar, só no mundo novo, na nova era.

Está nascendo um novo mundo que desenterra verdades como quem colhe mandioca que cozinha rápido e fica amarela. Um mundo dos que têm tempo para perder com amigos à mesa, juntos para saborear um bem comum, que não é mais uma caça, uma presa, mas o compartilhar da emoção serena, tranquila de quem acredita na vida, na verdade.

As grandes verdades não são relativas, nem mudam de lugar ou envelhecem no tempo. Deixe o rio correr, deixe a lua minguar, que a vida não é o que passa nem o que fica, é a emoção nos olhos, o gosto na língua, o perfume e aromas de uma noite de verão. Vidas inteiras, às vezes, valem por um dia, uma noite, valem por uma frase, uma palavra.

E assim caminha aquela humanidade que rima dignidade e vontade de ser a poeira da estrada que sobe quando o carro passa. O cachorro correndo atrás. Que movimento, que tranquilidade.

Seguir em círculo ou numa reta, pelo caminho longo ou curto, subindo ou descendo a ladeira, viver mineirissimamente, entrando pela cozinha, olhando nos olhos e confessando com simplicidade que não precisava mais nada, só um café, quente e sem açúcar. Ai, a vida que se desenrola por esse marzão de morros. Por essa Mantiqueira!

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: