Roda D´água

Aqui perto tem uma mina d’água. Não estou com sede e tenho minha própria água, mas aqui perto, eu sei, tem uma fonte de água limpa e energizada pela natureza correndo e se ofertando, dando-se de graça. Ela está se perdendo? Correndo ininterruptamente, brotando da terra e escorrendo num fio que se encontra com outro e assim, juntos, vão tomando corpo e se fazendo oceano, talvez se perca em devaneios. O oceano faz as nuvens, as nuvens fazem as gotas que caem como chuva nas montanhas. As gotas percorrem o solo até formar lençóis subterrâneos e brotarem como olhos d’água. É um círculo. É uma roda.

Nessa vida circular me reconheço uma dádiva. Estendo a mão e alcanço a água que escorre e se me dá sem saudade do oceano, sem olhar para trás. A mina sou eu. Move os êmbolos do meu templo chamado corpo. Aquece com o movimento do coração. Não precisa ferver para que eu viva. Essa água morna enriquecida de ferro e minerais que percorre meu corpo em veias, alimenta também a alma. Alimenta as emoções que me percorrem em reações químicas e elétricas.

Não tenho como me dissociar em partes de mim. Não tenho como falar de um coração, esse músculo que, sendo o que é, quanto mais se exercita, mais forte fica, sem falar de tudo que está envolvido para que ele bombeie. Meu coração é água. Eu sou água. Consigo me lembrar disso às vezes. Consigo me integrar como a água integra.

A água nunca é parada. Mesmo uma poça d’água contém em si a vibração da evaporação. Ela não só é movimento em si, mas provoca movimento naquilo que toca. Vai levando consigo, no leito do rio ou em sua corredeira, um pouco de semente, de grãos de areia, uma espuma, um peixe, o reflexo do céu, a luz da lua. Quando ela dorme, é o silêncio.

E assim, a vida é como a roda d’água: quando uma aleta fica cheia, ela faz girar toda a roda. É apenas uma enchendo, mas a água traz o movimento para o todo. A plenitude de uma é o movimento de todas. A consciência da unidade é um prêmio. Às vezes demora para percebermos a unidade de uma coisa que se faz por partes, mas que parte tem a água? Quanto é metade de uma água? A água só se mede se for num recipiente, nos seus contornos, porque não tem forma, não tem cor: ela é toda reflexo.

Essa é a magia da água. É também sua cura. Mas é principalmente abundância que se compartilha, que se dá de graça, porque não se contém.

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: