Terra, divindade feminina

Temos tratado a Terra e a Natureza como “ela”, na terceira pessoa, distante de nós, considerando que “ela” componha somente a paisagem em torno, de quem vive no espaço rural, ou o imaginário de quem é urbano. Distante e separada, um tratamento de ausência permanente. Não nos damos conta, de ordinário, que somos a Terra, somos a Natureza. Não há nada em nós que não tenha sido criado antes por Gaia, não há nada que nos alimente verdadeiramente que não venha de Deméter.

Mas ao nos apartarmos dela, da mãe original da vida, ainda nos sentimos superiores a ela. Toda medida de valor é feita com base nas características humanas, dadas como inquestionáveis, fazendo crer que tudo foi criado para nosso deleite, nosso uso ou abuso. Ao nos colocarmos a imagem e semelhança de Deus, do Criador, desconsideramos que todos seres vivos vêm do mesmo Criador, a partir do mesmo barro: a Terra.

A Terra é um grande organismo vivo, complexo e inteligente, autorregulado e autoconsciente, no qual participamos tal qual as células dos nossos tecidos. Quanto mais nos distanciamos de um comportamento natural e leve, mais deixamos de ser reconhecidos também pela Terra, e vamos deixando aos poucos de acessar a abundância e cura que ela promove o tempo todo.

A doença e a tristeza não são estados naturais de ser. Quem aceita esses estados como verdadeiros, pode custar a acreditar na vida, pode sentir dificuldade em agradecer por ela. Mas tudo está a nosso favor, se formos ver de perto, bem de perto. Mesmo aquilo que aos nossos olhos parece morte, é apenas transformação, transmutação, transcendência.

Na natureza uma árvore de 30 metros de altura não se sente melhor ou superior às ervas que lhe sobem pelo caule, que medram penduradas em suas copas. Uma floresta não se sente mais exuberante do que uma colônia de musgos numa pedra. Não existe comparação na natureza, no seio da mãe Terra. A célula epitelial que recobre o dedinho do pé não é menos importante do que o neurônio que a une ao cérebro. O coração não é melhor que o fígado, e o cérebro não é o guru, ou o órgão superior. Não há, sobretudo, essa separação entre os componentes, não há oposição, polarização.

Ao nos identificarmos com a Terra, reverenciamos o feminino da nossa vida: aspectos recalcados, simplificados, massificados e menosprezados pela forma de viver esse coletivo humano. O coletivo, aliás, que cedeu lugar à arena, o espaço competitivo entre os diversos seres. O feminino da mãe universal foi sucateado pela figura caricata de uma mãe submissa e eternamente cuidadora, inferiorizada constantemente, situação, no entanto, em pleno declínio atualmente, diante da agonia do sistema estritamente patriarcal.

O resgate do feminino e, principalmente nesse momento, o resgate do sagrado feminino é um movimento de retomada dessa consciência una, singular, de reverberação simpática, cósmica, porque nos reconhecemos a própria Terra, um ser galáctico, indissociável. É o reconhecimento da divindade feminina em todos os seres, para alçá-la à luz, tirando todas referências que o relacionaram até agora com o negativo, sombrio, obscuro. Para eliminarmos definitivamente a polarização que coloca o feminino no lado fraco da força.

Publicado por fe kurebayashi

alquimista de sabores e das palavras.... selvagem como toda mulher deve ser!

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